Passeio Publico
Jorge Laiginhas, Escritor (in, Jn, Sábado 30, Agosto 08)
A Carapuça é para quem a enfia
Vitivinicultura Crise avinhou-se nas Adegas Cooperativas da Região Demarcada do Douro
Ao que me dizem a crise avinhou-se nas Adegas Cooperativas da Região Demarcada do Douro. E ter-se-à avinhado de tal modo que, os lavradores, bêbados de crise, estão sem forças para se botarem à vindima que aí vem É verdade que, como exemplo, no concelho de Alijó a alegada crise já destilou a Adega Cooperativa de Sanfins do Douro. Consta-me que o alambique da crise já ferve em cachão, preparando-se para outras destilações.
Sou historiador antes de ser cronista e, porque em bastas ocasiões a história se repete, faço minhas, a propósito da propalada crise das Adegas Cooperativas, as palavras de Rómulo Ribeiro escritas no longínquo ano de 1972!
“As aves migradoras, se faz bom tempo, elas vêem, se faz mau tempo elas vão. Assim têm procedido, e procederam este ano, alguns sócios das cooperativos. Defendemos um cooperativismo válido que não fique inferiorizado perante as realizações das empresas capitalistas, em igualdade de meios. Também já o temos dito: as cooperativas fazem diluir o sentido de responsabilidade e conduzem a que nem sempre se alcance o grau de eficiência desejado. Mas isso não é cooperativismo, senão o seu arremedo. O mal não está no cooperativismo, mas na sua ausência. Porque o cooperativismo impõe a participação, a conjugação de forças, a mais-valia de meios e processos. Há que tirar partido das cooperativas. Não basta ter delas o rótulo ou as instalações. Portanto cada sócio deve ser na cooperativa, e de pleno direito, um elemento de controle e de estímulo.
Mas sucede que por vezes os sócios se iludem com preços esporádicos, acidentais, praticados fora da alçada da cooperativa. Seduzidos por lucros a curto prazo, abandonam as cooperativas, defraudando-as, desacreditando-as. A longo prazo, perdem, não ganham. Mais ainda: requerem sanção, porque favorecem o inimigo das sua próprias organizações. Ou são ou não são. Entrarem com o tempo bom, saírem com o tempo mau, como aves de arribação, é que não pode ser. De contrário quem paga as despesas obrigatórias das cooperativas? E quem vale ao pequeno produtor na hora da crise? O pequeno produtor não tem outra defesa senão a cooperativa. “
Pois foi. Pois é. A carapuça é para quem a enfia.
Chegou-me à caixa de correio o “Projecto para salvar a Casa do Douro”da autoria do jornalista, e viticultor duriense, Pedro Garcias – candidato a Presidente da Direcção da Casa do Douro. Li o manifesto com o entusiasmo de quem acredita que o país será mais forte se a Região Demarcada do Douro estiver de boa saúde. E, nos dias do agora, não está.
Claro, sintético – ao jeito dos paladinos do Douro que pensaram e edificaram a Casa do Douro na primeira metade do século vinte – Pedro Gracias propõe cinco medidas para “salvar a casa do Douro”. São elas o saneamento financeiro da instituição, a moralidade de direcção; a ligação entre a Casa do Douro e as Adegas Cooperativas e novos desafios para os tempos novos que vivemos.
Torcato Magalhães (1856-1929) um dos Paladinos do Douro, escreveu, a propósito da crise de Douro das primeiras décadas do século XX: “Se lançarmos uma vista retrospectiva às campanhas passadas em relação com as presentes, nós encontrámos hoje as mesmas elites de há dez, ou vinte anos, sem um alistamento de energias novas a substituir faltas ou a irrigar de sangue novo as existentes.”
Pois foi. Pois é. A carapuça é para quem a enfia.
