Síntese e comentário literário ao livro: «Cartas de um Viajante Francês»

          Título: Cartas de um Viajante Francês
Autores da edição e do estudo: Fernando Torres Moreira e José Barbosa Machado
Editor: CEL, 2007
Nº de páginas: 142

   

            Com o propósito de escrever a sua viagem o anónimo «Francês», envia a pedido de um tal Monsieur de S., uma série de 20 cartas onde relata com precisão e entusiasmo a sua passagem pelo Reino de Portugal.

            Estas foram recompiladas e traduzidas pelo Prof. Fernando Alberto Torres Moreira e pelo Prof. José Barbosa Machado, com a finalidade de «reflectir e apresentar uma síntese sobre o carácter e estado presente de Portugal».

            Somente pela primeira carta se consegue localizar cronologicamente a escrita do autor, visto ser a única que se encontra datada, 2 de Fevereiro de 1782.

            Ao longo das vinte cartas o anónimo «Francês» descreve, «com imparcialidade, brevidade, e clareza», o exame que faz de Portugal.

            Antes de entrarmos numa breve descrição do aglomerado de cartas é de suma importância passar por algumas temáticas que têm assombrado o livro e seu autor – Cavaleiro de M. A identidade do autor é um dos assuntos que tem merecido alguns reparos ao longo dos tempos. Suspeita-se que as cartas não seriam da autoria de um viajante francês, apesar das constantes correlações com a literatura e cultura francesa, julga-se que o verdadeiro autor seria um português exilado ou vivendo em França, e que teria usado este pseudónimo – Cavaleiro de M.–  para explanar a sua opinião sobre o pais natal.

            Identificando, através da data da primeira carta, o momento em que estas cartas foram escritas, é perfeitamente plausível que o escritor fosse um português «disfarçado». Tendo em conta que estaríamos por volta do séc. XVIII, este livro é uma grande crítica à sociedade e à religiosidade portuguesa, uma vez que se estaria a viver em Portugal uma assaz Inquisição; somente «disfarçado» se conseguiria escrever umas cartas com tal grau criterioso.

             O autor começa por fazer referência à localização geográfica do país, ao seu bom clima, às suas riquezas naturais, aos produtos que produz. Serve-se para as suas primeiras incursões pelo território de informações recebidas por muitos franceses residentes em Portugal. Realiza um série de comparações com os vizinhos Castelhanos em que, refere, «mais sóbrios, animosos, e fortes que os Castelhanos (…) mais sofredores do trabalho, e mais atrevidos para o negócio da paz e da guerra.» –   vingativo e ciumento são características do Português que o autor liga à nossa raiz mourisca.

             Aborda o tema da segurança, dá alguma importância a um tema já rebatido por alguns autores, o do tratamento dado aos estrangeiros, qualificando o português como presunçosos e desprezível destacando como principais razões a pouca instrução e a ignorância. (Muitas das críticas feitas em séculos passados estão em perfeita consonância com os acontecimentos da actualidade).

            A Religiosidade dos portugueses é tema de destaque. O autor caracteriza-a como sendo uma religiosidade analfabeta.

«Não à parte alguma no mundo, onde as visões, revelações, milagres e predições do futuro, sejam mais facilmente cridas, nem mais cegamente respeitadas»

            No entendimento do autor a ignorância extrema e a má educação cristã serão as causas mais profundas de uma religiosidade tão particular.

            Visualizando a mulher portuguesa, repara na pose que o homem português exerce sobre ela, «são sumamente ciosos», e critica a sua futilidade exacerbada, «educadas a sobrepor a beleza física às qualidades do espírito».

            A política social, a organização agrária e o comércio também têm lugar nas suas cartas recebendo críticas bem fundamentadas acerca da má utilização dos recursos, má gestão económica a ideia enraizada do «vigarista» negociante.

            Faz rasgados elogios à língua Portuguesa, «mais legítimas filhas da latina, sonora, breve, fácil de se poder escrever como se pronuncia», critica por seu lado o uso que o português faz dela.

            Ao lado da crítica religiosa encontra-se também, no que toca à dureza, a reprimenda ao estado das ciências portuguesas. E por fim na última carta são apontados e responsabilizados os máximos culpados, D. João V, D. João I e o Marquês de Pombal.

Obra brilhante e impactante, pela assustadora actualidade que a observação pormenorizada de um viajante que descreve o Reino Português com minúcia nos faculta. Desejaria que a obra não se tivesse tornado intemporal, talvez signifique que existem coisas que demoram a mudar. Mas séculos? Não será demasiado?

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~ por Nuno em Março 4, 2008.

Uma Resposta to “Síntese e comentário literário ao livro: «Cartas de um Viajante Francês»”

  1. Os meus ensinamentos não foram em vão!
    Se nós tivéssemos um conhecimento aprofundado do nosso passado, talvez não se cometessem os mesmos erros no presente e talvez delineássemos melhor o futuro! Não é assim, Nuno? Talvez…

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